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Como dialogar sem violência

Como dialogar sem violência

Muitas pessoas que se aproximam do veganismo já devem ter escutado falar sobre Comunicação Não-Violenta, ou CNV. Não, não é um jeito "nova era" de falar de forma mais tranquila, para que todos possam viver na paz e no amor. E não, não existem metodologias, fórmulas, nem técnicas precisas. Trata-se, na verdade, de uma forma libertadora de enxergar, dialogar e participar do mundo.

Hoje vivemos em um sistema que não favorece uma conexão saudável no nível intra-pessoal (eu comigo mesmo), no nível interpessoal (eu com o outro) e no nível sistêmico (eu com a comunidade, sociedade e mundo em que vivo). A violência pode acontecer nesses três níveis, e, portanto, continuar ignorando isso pode ser trágico para a vida humana. Se você se identifica com isso, continue lendo para entender outras formas de dialogar.

Estruturamos e elaboramos sociedades muito sofisticadas com nossa capacidade de comunicação, mas acabamos nos distanciando de emoções e necessidades que fazem parte de nossa humanidade compartilhada. Estabelecemos e consentimos com “acordos sociais” que nos trazem cada vez mais danos em vez de benefícios.

Falta escuta, falta presença, falta conexão, sinceridade, especificidade, falta equilíbrio. A que, ao que e a quem anda servindo, então, nossa forma de dialogar?

Reconhecimento

Para entrar em contato com nossa natureza compassiva e despertar o melhor que podemos ser, é preciso transformar as dinâmicas repressivas que se naturalizaram e que, muitas vezes, não conseguimos mais nem enxergar. Por isso a Comunicação Não Violenta (CNV) é urgente e necessária.

“Ah, mas não tenho tempo para falar sobre isso”, “não quero tocar em assuntos delicados”, “tô fugindo de problema!”, “tenho certeza de que estou certa e não quero mudar minha visão”, “mas isso vai atrapalhar minha produtividade”. Acredito que poucos podem dizer que esses pensamentos nunca os atravessaram. Mas como disse Paulo Freire, “se a estrutura não permite um diálogo, a estrutura deve ser mudada”.

A raiz dos problemas

O psicólogo americano Marshall B. Rosenberg, autor do livro Comunicação não violenta (“Nonviolent Communication: A Language of Life”), desenvolveu uma pesquisa que levou à construção de uma rede global de mediadores e facilitadores que desejam atuar em vários níveis da sociedade em favor da paz.

Pela visão da CNV, os problemas são causados pela dificuldade de escutar nossas necessidades mais profundas e de escutar a dos outros. Existem necessidades básicas, como necessidades físicas, amor, aceitação, apreciação, autonomia, que são humanas e que todos compartilhamos. Quando essas necessidades não estão sendo atendidas, ou estão sendo atendidas de forma errada, isso nos gera uma série de sentimentos.

Geralmente não sabemos lidar com esses sentimentos e acabamos lidando com eles de uma forma negativa. Não aprendemos a falar sobre nossos sentimentos em nossas famílias, nas escolas e ambientes de trabalho. É cultural. E existem poucos espaços seguros para isso.

A combinação das necessidades não atendidas e da dor de não as expressarmos é receita para patologias. Pessoas doentes criam sociedades doentes.

Mas podemos transformar essa dinâmica.

como dialogar melhor

Como praticar a CNV?

O processo da CNV que você pode começar a experimentar e praticar hoje passa por:

  • Observação
  • Sentimento
  • Necessidades
  • Pedido

Primeiramente observamos e identificamos uma situação que gera incômodo e os fatos concretos daquela situação. Depois buscamos identificar os sentimentos gerados (em mim ou em outra pessoa). Por trás desses sentimentos existe uma necessidade não atendida. É nela que queremos chegar, esse é o objetivo. Podemos também formular um pedido específico para transformar aquela situação.

Como foi dito, não é uma fórmula, mas são passos que foram identificados que funcionam em muitas situações de mudança na forma de dialogar.

Pense antes de falhar

O caminho da CNV é desafiador e é preciso de abertura para exercitá-lo. Assumir responsabilidade por nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos exige uma maior conexão com nós mesmos e mais autoconhecimento. Saber quando estamos prontos para dialogar também, afinal, antes de tudo, precisamos checar e talvez aumentar o nível da escuta. “Antes de fazer a ligação, verificar se o telefone está ligado e existe sinal.”

Reconheça que existem e sempre vão existir falhas e limitações na nossa comunicação. Por isso, não adianta apenas perguntar/dizer que entendeu, tente perguntar/dizer O QUE entendeu.

“Entre o que eu penso, o que quero dizer, o que digo e o que você ouve, o que você quer ouvir e o que você acha que entendeu, há um abismo”

Alejandro Jodorowsky

E depois disso os conflitos acabarão enfim?
Não, por favor. Acabar com os conflitos seria acabar com toda a possibilidade de mudança. Os conflitos são sinalizadores de que precisamos atualizar nossas relações. O “pop-up” do conflito surge quando algo não anda bem e precisamos olhar para isso.


Se você chegou até aqui, é muito provável que esteja [email protected] a mudar sua forma de dialogar, a criar uma realidade diferente, com mais amor e compaixão, um mundo melhor para todos os seres. Mas não podemos fazer sozinhos, precisamos de apoio, de amigos, de comunidade, de uma rede para isso. E estamos construindo isso, a mudança está em curso e devemos persistir. 

A não-violência, o ecofeminismo, o veganismo e vários outros movimentos reconhecem que não devemos continuar pensando em um desenvolvimento com base na exploração de outras pessoas, de outros seres e da própria Terra. Eles vêm ganhando força e esperamos atentos e confiantes para receber o novo mundo que surge das rachaduras desse velho mundo.


Luíza Caldas é engenheira ambiental, fundadora da @vamos.coviver e do @obiobar. Permacultura, comunidades sustentáveis e conexão de pessoas.


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