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Economias de transição: Teoria U e Economia do Donut

Economias de transição: Teoria U e Economia do Donut

Quando discutimos mudanças na economia, é preciso compreender os problemas que enfrentamos e de onde podemos partir para encontrar soluções que funcionam. Conheça algumas propostas de mudanças criadas no mundo.

Na live lá no Instagram sobre economias de transição, a Luíza da @vamos.coviver falou um pouco sobre as falhas do nosso sistema econômico e uma nova estrutura que pode nortear políticas. Depois da nossa convers,a pedi para ela explicar um pouco mais sobre essas novas economias, e por isso ela trouxe aqui a Teoria U e o modelo da Economia do Donut.

Antes, porém, precisamos abordar sobre nosso sistema econômico atual.

Desconexões

Quando olhamos para a economia, também vemos que existe uma série de desconexões significativas:

Desconexão entre a economia financeira e a economia real: grande parte das transações cambiais são especulativas, sem servir para uma finalidade social. A formação de bolhas financeiras desestabilizam a economia real.

Desconexão entre o imperativo do crescimento infinito e os recursos finitos do planeta Terra: a utilização de recursos escassos para satisfazer nosso consumo desenfreado leva a perdas que podem ser irreversíveis. Em apenas uma geração, perdemos um terço de toda a terra fértil do planeta.

Desconexão entre os que têm e os que não têm: vivemos em desigualdade extrema em que apenas 1% da população detém 40% da riqueza do mundo enquanto metade da população detém apenas 1%.

Desconexão entre o PIB e o bem-estar: pesquisas mostram que o maior PIB e maior consumo material não levam a um maior bem-estar após certas necessidades satisfeitas.

Desconexão entre as formas de posse reais e a melhor utilização social da propriedade: o Estado e a propriedade privada permitem a utilização excessiva e má administração de recursos sociais e ecológicos comuns.

Outras dificuldades

Externalidades: As externalidades são os efeitos positivos ou negativos gerados a terceiros por uma atividade e que não são considerados em seu preço. Em nossa sociedade as externalidades positivas tendem a se acumular no topo da pirâmide, enquanto as externalidades negativas são impostas para a maioria da população.

Fluxo de dinheiro na direção errada: priorizamos modelos que favorecem a economia de escala, concedendo créditos para grandes projetos e clientes seguros fazendo com que novas e boas ideias, projetos com benefícios sociais paguem mais caro e aqueles que já têm paguem preços mais baixos.

Governança, grupos de interesse e lobby: organizados em setores como o bancário, agrícola, petrolífero e farmacêutico, exercem influência desproporcional sobre órgãos regulamentares e legisladores.

Essas desconexões são algumas das falhas do nosso sistema atual e é necessário definir a base para construirmos um novo modelo. Podemos fazer isso a partir do estabelecimento de alguns parâmetros. Os exemplos a seguir ilustram novas estruturas norteadoras para o futuro.

Teoria U

Sistematizada pelo professor Otto Scharmer do Massachusetts Institute of Technology (MIT), a teoria U investiga processos de mudanças, aprendizagem e inovação. De acordo com essa teoria, os sintomas visíveis das crises que percebemos no mundo são apenas a ponta de um iceberg, mas que no fundo disso temos como fonte estruturas e modelos mentais que causam essa patologia. No fundo do iceberg nota-se que há uma desconexão sistêmica que a teoria explica como: divisão ecológica, divisão social e divisão espiritual/cultural.

Divisão ecológica

Estamos esgotando e degradando nossos recursos naturais em grande escala, usando mais recursos preciosos não renováveis ​​a cada ano. Embora tenhamos apenas um planeta Terra, deixamos uma pegada ecológica de 1,5 planeta; isto é, atualmente estamos usando 50% mais recursos do que nosso planeta pode regenerar para atender às nossas necessidades atuais de consumo.

Divisão social

Dois bilhões e meio de pessoas em nosso planeta subsistem com menos de US$ 2 por dia. Embora tenha havido muitas tentativas bem-sucedidas de tirar as pessoas da pobreza, esse número, 2,5 bilhões, não mudou muito nas últimas décadas. Além disso, vemos uma crescente polarização na sociedade, na qual o 1% superior possui junto um valor maior do que os 90% inferiores.

Divisão espiritual-cultural

Enquanto a divisão ecológica se baseia em uma desconexão entre o eu e a natureza, e a divisão social em uma desconexão entre o eu e o outro, a divisão espiritual reflete uma desconexão entre o eu e o eu – ou seja, entre o meu “eu” atual e o “Eu”  futuro emergente que representa meu maior potencial. Essa divisão se manifesta em números crescentes de esgotamento e depressão, que representam a crescente lacuna entre nossas ações e quem realmente somos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2000, mais de duas vezes mais pessoas morreram por suicídio do que em guerras.

A economia do Donut

Depois da Revolução Industrial a atividade humana começou a exercer pressão significativa sobre o meio ambiente e, apesar disso, a população humana nunca viveu acima da base social, garantindo condições dignas para todos os seres humanos.

Estamos prejudicando a capacidade do sistema Terra de manter a estabilidade. Em 2009 cientistas identificaram as 9 fronteiras planetárias para manter a Terra no estado estável do Holoceno dos últimos 10 mil anos. Em 2012, a economista inglesa Kate Raworth apresentou um modelo para definir o desenvolvimento sustentável e a área do lugar seguro e justo para a humanidade se desenvolver entre a base social e o limite ambiental. Esse modelo foi chamado de Economia do Donut (ou rosquinha).

OXFAM. As 11 dimensões da base social são ilustrativas e estão baseadas nas prioridades dos governos para a Rio+20. As nove dimensões do limite ambiental máximo estão baseadas nas fronteiras planetárias estabelecidas por Rockström et al (2009b)

O duplo objetivo é alcançar um espaço em que não existam mais privações humanas críticas e ao mesmo tempo usar os recursos naturais sem ultrapassar os limites ambientais. É o espaço em que o bem-estar é garantido. São fronteiras normativas e veem tanto a questão local quanto global como importantes. Para isso é necessário uma abordagem integrada, novos focos nas prioridades econômicas e outras medidas para guiar nossas políticas para além do PIB.

Coronavírus e as mudanças econômicas

Agora com a COVID19, nos vemos de frente com a possibilidade de mudanças no nosso sistema econômico. Amsterdam é uma cidade que planeja adotar uma política baseada no Donut pós-pandemia.


Referências:

Teoria U – The Iceberg Model. Disponível em: https://www.presencing.org/aboutus/ego-to-eco/three-divides

Economia do Donut – RAWORTH, Kate. Um espaço seguro e justo para a humanidade – podemos viver dentro de um “donut”? Textos para discussão da OXFAM, 2012. Disponível em: https://www.oxfam.org/sites/www.oxfam.org/files/file_attachments/dp-a-safe-andjust-space-for-humanity-130212-pt_4.pdf


Luíza Caldas é engenheira ambiental, fundadora da @vamos.coviver e do @obiobar. Permacultura, comunidades sustentáveis e conexão de pessoas.


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