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A luta indígena contra a pandemia: problemas e alertas

A luta indígena contra a pandemia: problemas e alertas

Dia 19 de abril foi o Dia do Índio. Uma data que sempre foi para refletirmos, em 2020 é mais uma vez um dia de fortes preocupações.

Estamos enfrentando uma crise que tem, como muitas outras, efeitos ainda mais devastadores para a população indígena. Nesse momento estamos preocupados com uma pandemia, uma doença perigosa que pode levar a sérias complicações respiratórias e à morte de milhares de pessoas no Brasil. Temos que nos proteger e mudar todas as nossas vidas, pois estamos diante de uma ameaça nova, desconhecida. A sensação de medo e insegurança nos acomete. E para os indígenas não é diferente: a luta precisa ser fortalecida.

Vulnerabilidades

ACESSO À SAÚDE

Agora, mais uma vez, a chegada da COVID-19 intensifica as ameaças sofridas pela população indígena. Uma marca da destruição que não tem nada a ver com eles e com sua forma de viver. Mesmo assim, sofrerão como população mais vulnerável. Não por questões imunológicas, mas por questões sociais e de acesso à saúde. A maior parte da população indígena vive em áreas com menos leitos hospitalares, distantes de hospitais e em difíceis condições sanitárias.

MODO DE VIDA

Normalmente o formato de moradia em muitas aldeias é de casas compartilhadas, habitações com muitas pessoas. O próprio modo de vida de vários povos inclui o compartilhamento de utensílios, cuias, panelas e objetos para a alimentação. Logo, a forma de viver, de se alimentar e de celebrar tem como característica essa proximidade que pode aumentar o contágio de doenças.

luta indigena contra o COVID
Indígena da etnia Enawenê-Nawê distribuindo beiju em ritual para celebrar a pescaria – Pulsar Imagens

INVASORES

Além da questão do modo de vida, essa crise abriu ainda mais brecha para os garimpos ilegais, grilagem de terras e exploração ilegal de madeira que estão aumentando na Amazônia. Além das vulnerabilidades apresentadas, esses povos estão expostos ao contato com invasores.

Antes, é preciso dizer que essa situação já aconteceu muitas vezes em comunidades indígenas com a chegada de colonizadores, que trouxeram doenças que se espalharam e dizimaram populações inteiras.

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Por esses motivos, a chegada da doença pode trazer efeitos ainda mais graves para essa população. Além das mortes, a doença que afeta mais severamente os idosos, pode levar a uma perda irrecuperável da sabedoria dos anciãos, da cultura e da organização social.

Situação de casos na população indígena

Hoje o Brasil apresenta nove casos testados e outros 24 suspeitos, segundo os últimos dados (12 de abril) da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), do Ministério da Saúde.

Há também uma preocupação decorrente dos resultados da autópsia de uma mulher da etnia Borari, na área urbana do interior do Pará, detectando o coronavírus como causa de sua morte. É alarmante, pois indica um possível risco de contágio no coração da Amazônia, uma vez que o velório da anciã, de 87 anos, reuniu no final de março centenas de pessoas de várias comunidades, sem nenhuma medida preventiva. A cidade mais próxima, Santarém (PA), só possui 20 leitos.

ENFRENTAMENTO

As populações indígenas contam com um subsistema de saúde do SUS, a SESAI-  Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), criada em 2010.
Os desafios das equipes de saúde e das lideranças indígenas agora é evitar o deslocamento de indígenas para as cidades, observar os casos suspeitos e garantir o abastecimento das aldeias durante o isolamento. Tudo isso com testes, EPIs e infraestrutura limitados.

Acompanhe e apoie

Recentemente, o ISA (Instituto Socioambiental) lançou um site para monitorar a situação indígena com a COVID19 com dados, informações, análise de vulnerabilidade considerando a vulnerabilidade  social, disponibilidade de leitos hospitalares, números de casos por município, número de óbitos, perfil etário da população indígena, vias de acesso e outros fatores relacionados com a estrutura de atendimento da saúde indígena e mobilidade territorial.

No site é possível acompanhar as notícias e ver a listagem de iniciativas que precisam de apoio neste momento.
https://covid19.socioambiental.org/

Referências
El País
Agência Pública


Imagem do post: de Gustavo Caboco, no Instagram @projeto_origem

Algumas palavras do artista sobre o desenho: “Sugiro para que os parentes se agarrem em suas raízes, abracem a força da terra e a força da floresta. É tempo de transformação a todos e importante firmar nossa mão na terra, tempo importante de cuidar dos nossos, nos nossos próximos, nossas famílias e nossos velhos. Tempo de não transitar por aí. Abraça a terra parente, ouve os sonhos, compartilhe seu conhecimento ancestral-presente, sopre estrelas ao mundo, pra que converse com aquele parente que está num contexto menos favorecido. Muito medo está instaurado, e o medo tem espírito, nos agarremos ao espírito da terra. Cuida parente!” 


Luíza Caldas é engenheira ambiental, fundadora da @vamos.coviver e do @obiobar. Permacultura, comunidades sustentáveis e conexão de pessoas.


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