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O que as ecovilas têm para nos dizer

O que as ecovilas têm para nos dizer

Uma live organizada pela GEN (Global Ecovillage Network), a rede global de ecovilas, reuniu lideranças comunitárias e co-fundadores de Ecovilas para falar sobre o impacto do Coronavírus e as respostas das comunidades frente à questão. Confira a conversa!

No dia 24 de abril de 2020, lideranças comunitárias e co-fundadores de Ecovilas se reuniram numa live no dia 24 de abril de 2020 organizada pela GEN (Global Ecovillage Network), a rede global de ecovilas, para falar sobre o impacto do Coronavírus e as respostas das comunidades frente à questão.

Mediada por Taísa Mattos, coordenadora de educação da GEN, a conversa contou com os convidados Romeu Leite, co-fundador da Vila Yamaguishi (Jaguariúna – SP), Angelina Ataíde, co-fundadora da Comunidade Inkiri Piracanga ( Maraú – BA) e Edgard Gouveia Jr, arquiteto mobilizador da Jornada X – Operação Antivírus.

Cartaz do evento que aconteceu no dia 24 de abril

A situação

Em meio à situação de mais de 2 milhões de infectados pelo vírus, mortes, a dor e o medo, fica complicado nos concentrarmos em nossas atividades. Como proteger a nós mesmos, a quem amamos e ajudar quem precisa? Quando voltaremos ao normal, e qual será esse novo normal? Muitos acontecimentos têm nos deixado preocupados.

O sentimento misto relatado pelos participantes, para além da preocupação, continha um alívio, uma consolação pela constatação de que o planeta pode se cuidar. “Todos aqui lutando, brigando, brincando para salvar o planeta, há tanto tempo e o planeta pode resolver assim num estalar de dedos. (…) Então fica claro que nós não vamos ter que correr muito para salvar o planeta, vamos ter que correr muito para salvar a humanidade. Claro, com a preocupação de que a gente faça isso antes de acabar com as outras espécies”, diz Edgard Gouveia. “Nós seres humanos somos os únicos afetados com isso”, diz Angelina.

Esse é o momento em que precisamos falar sobre qual futuro queremos, e onde podemos buscar as soluções para um mundo pós-COVID19.

O que andam fazendo

ANGELINA – Em pouco tempo nós mudamos estruturas que estamos falando de mudar há muito tempo. A comunidade (Inkiri Piracanga) foi crescendo e crescendo, e agora buscamos nos tornar mais simples, pôr mais atenção na natureza, ver a comunidade se unindo. O que era muito difícil antes, hoje está fácil porque é uma necessidade.

Decidimos fazer um sistema financeiro emergencial. A gente criou uma bolsa de auxílio para todos e para todas as crianças também. São como dois salários: o “tamo junto” e o “mãos na massa” para quem deseja construir junto. O auxílio comunitário – do primeiro chakra – serve para atender as necessidades básicas nesses tempos.

EDGARD –  A Jornada X é um game em forma de gincana que é uma sequência de missões para jovens, para transformar o bairro no bairro dos sonhos. Então a gente recebeu um convite para fazer um jogo para a pandemia. Os jovens fazem parte de uma geração que consegue se organizar e conectar pessoas para jogos online etc, são serezinhos super tecnológicos.

O jogo é o seguinte: não pode sair de casa. Tem que formar grupos de 12 pra ajudar alguém em algum dos temas como falta de água, economia da quebrada, grupos de risco, fake news… Não é elegante chamar as crianças para salvar o mundo, criança tem que brincar. Não é justo o que a humanidade está fazendo com a Greta, por exemplo. Mas podemos convidá-los a brincar. Quando eles estão na brincadeira, eles estão protegidos do medo do eu não sei, eu não posso e fazem coisas incríveis.

ROMEU – Aqui na Vila Yamaguishi paramos de fazer as feiras e estamos entregando, recebendo um número muito grande de pedidos, nem conseguimos dar conta de entregar tudo isso. Mas é muito bom saber que podemos dar esse suporte, prover um alimento para as pessoas, para nutrir e fortalecer.

Conversa no Zoom – dia 24 de abril de 2020

Oportunidades

Os convidados relataram que estão vendo coisas muito interessantes acontecerem agora. Pais tendo que ficar em casa, educar os filhos e ver o trabalho que os professores têm. As pessoas estão passando mais tempo com as famílias, limpando e cuidando de suas casas. Percebendo que não precisam pegar o carro o tempo todo. Dando valor aos profissionais da saúde que estão na linha de frente. Recorrendo à arte, à cultura. E principalmente, valorizando a ciência e o acesso à saúde. 

A crise levou a reflexões sobre como nós, seres humanos, impactamos, poluímos e somos barulhentos. Agora vemos o ar mais limpo, os animais mais próximos e tranquilos. Outras reflexões geradas são sobre como precisamos aprender a colaborar e aumentar a nossa capacidade de resposta e de ação rápida.

Uma ação para enfrentar a pandemia é muito clara: desacelerar! Estamos passando por uma mudança muito profunda, ninguém sabe muito. É momento de reconectar com o que é verdadeiro. “Nos esquecemos do essencial, pois havia muita distração, shopping center, restaurantes, cinemas…” diz Angelina. Na verdade, as coisas do jeito que estavam já não dava mais, só que agora provamos que é possível sim parar a economia. Tudo está em aberto, mas corremos um risco de voltar ao normal. “Temos que entender que as pessoas é que são importantes. A economia, a tecnologia, os empregos, essas coisas existem para as pessoas. Seria bom um caminho se construíssemos uma sociedade em que as pessoas sejam importantes” diz Romeu.

o que as ecovilas influenciam no futuro
Freepik

E como as ecovilas podem ajudar?

Imaginem lugares em que existe água boa, comida orgânica, em que não há pobreza, há pessoas felizes… As ecovilas têm muito a ensinar e abrir caminho nessa construção. São laboratórios que contam com uma força ancestral do tempo em que vivíamos em pequenas comunidades. Essa força nos dá segurança de que todos têm seu lugar e que dá certo viver assim. “O futuro da humanidade são as comunidades, vejo isso há 30 anos” diz Angelina, “nosso papel que está aqui é inspirar e mostrar que é possível”. Hoje as comunidades Inkiri Piracanga e a Vila Yamaguishi são referências no Brasil. “Antes precisávamos de muita coragem para escolher uma alternativa, agora é uma necessidade”.

Os encontros virtuais estão acontecendo no mundo inteiro. Grupos, comunidades, redes de apoio, coletivos… Queremos nos conhecer, nos conectar e entender como podemos nos ajudar. Muitas comunidades unidas, diversas, respeitando essa diversidade e cooperando podem fazer essas mudanças necessárias.

Romeu propôs a reflexão de como queremos que seja a nossa relação com o planeta e nossa relação com as pessoas. As ecovilas podem mostrar modelos de como podemos nos organizar, cada um com a sua experiência, inspirando e dando ferramentas.

“É fácil? Às vezes. É difícil? Às vezes. É maravilhoso? Sempre! É maravilhoso poder viver aquilo que acreditamos. Não sinto que devemos buscar o que é fácil ou difícil, mas sim o que é verdadeiro”. Angelina Ataíde.


Crédito da imagem de abertura: frente da ecovila Findhorn, Escócia, considerada a primeira ecovila no mundo.

Link da live: https://www.facebook.com/GlobalEcovillageNetwork/videos/712422979504426/
Jornada X: https://jornadax.com.br/
Inkiri Piracanga: https://piracanga.com
Vila Yamaguishi: http://www.yamaguishi.com.br/
GEN: https://ecovillage.org/


Luíza Caldas é engenheira ambiental, fundadora da @vamos.coviver e do @obiobar. Permacultura, comunidades sustentáveis e conexão de pessoas.


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