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Pandemias: os animais não têm culpa

Pandemias: os animais não têm culpa

Os humanos normalmente culpam os animais, sem que parem para refletir como os hábitos de consumo influenciam na existência dos vírus. Leia para entender

Covid-19, gripe aviária, doença da vaca louca, gripe suína, ebola, síndrome respiratória aguda grave (SARS), síndrome respiratória do Oriente Médio… Apesar de muita gente saber que estas doenças vieram de mutações de vírus que passaram de animais para humanos – possuindo ação diversa em cada um –, geralmente o debate se encerra aí.

Porém isso é muito raso e talvez pelo peso das reflexões que se desdobram sobre seus hábitos de consumo, muitas pessoas escolhem fechar os olhos e seguir sua vida até que a próxima doença surja. Entretanto, elas estão cada vez mais frequentes e imprevisíveis (cientistas esperavam que a próxima pandemia mundial seria de um vírus influenza e não da família corona), e apenas tratar os sintomas não é mais suficiente.

O papel da carne na pandemia

A partir do momento que homens começaram a criar animais e, assim, conviver com seu sangue, carne, dejetos e fluidos (em resumo, tudo o que envolve um abate), vírus, que residiam e se desenvolviam naqueles corpos que não pertencem aos humanos, encontraram hospedeiros para evoluir e se multiplicar: nós.

Claro que alguns vírus demoraram mais do que outros em sua jornada evolutiva, como o do sarampo (vindo do gado) e o da varíola (originária ou de camelos ou de um roedor do deserto). Mas a revolução industrial e a automatização de diversos processos, somadas ao aumento populacional e ao investimento no mercado da carne, fizeram tudo isso ficar mais rápido, além de terem possibilitado o crescimento das fazendas e a mudança de nome de “plantação e criação de gado, galinha, porcos…” para agropecuária.

Hoje, além de expor uma carne limpa e sem sangue embalada em plástico no mercado, o nome “agropecuária” afasta as pessoas da consciência sobre todo os danos que ela gera para os animais, o planeta e nossa saúde.

Os animais são usados e abusados por uma indústria lucrativa, sustentada por aqueles que não perguntam a origem do seu alimento. Filhotes separados de suas mães, animais forçados à reprodução, bichos recebendo injeções de hormônios, de medicamentos e de toda a sorte de químicos para que suas carnes rendam mais embalagens que levam o selo de “alimento saudável e proteico”.

veganismo e doenças
Pixabay

Testes em animais também são vilões

Mas é preciso lembrar que o abate para consumo é só uma das formas de aglomeração de animais. Ainda existem, por exemplo, os animais confinados para serem usados para testes.

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Cachorros, gatos, coelhos, ratos, baratas e uma longa lista de bichos são confinados e sofrem como cobaias de testes para a produção de cosméticos, produtos de limpeza, venenos, perfumes, medicamentos… Ou seja, é preciso ir além dos campos e praias quando questionamos até que ponto impusemos nossa presença e nossas vontades diante dos animais – e, por isso, quem financia marcas que fazem ou terceirizam testes perde o direito de questionar ou reclamar sobre os vírus surgirem por causa do consumo de animais “não convencionais” (sob o ponto de vista ocidental).

Consumo de animais selvagens

Não é possível terminar este texto sem falar sobre o consumo de animais selvagens na China, principalmente no mercado vivo de Wuhan. Contudo, precisamos, mais uma vez, traçar um paralelo entre hábitos de consumo e a História.

Além de cada país e região do planeta contar com uma biodiversidade e cultura específica, precisamos entender que a criação e o transporte principalmente de vacas, bois, galinhas e porcos para consumo era destinada a uma classe privilegiada. O resultado disso é que ainda hoje carne é sinônimo de status – quer coisa mais cara que um churrasco de final de semana?

Assim, quem não tinha acesso a essa alimentação (a maioria da população), mas também gostaria deste tipo de luxo vez ou outra na sua vida, passou a consumir animais não convencionais. E isso ganhou até nome: “iguaria”. A diferença é que algumas são mais bem-aceitas, como caviar e foie gras; outras são consideradas ilegais (e por isso mesmo mais caras), como a carne de boto a de capivara, consumidas aqui no Brasil mesmo; além de outras vastas opções oferecidas em Wuhan.

Consumo consciente

Falar sobre isso para muitos veganos pode parecer um “chover no molhado”. Mas a verdade é que nunca foi tão urgente propagar os riscos que o mercado de consumo de animais fornece à saúde da população mundial.

Consumir de forma consciente vai muito além de comemorar quando uma empresa que realiza testes em animais em determinado país lança uma linha vegan em outro. É perceber que ainda existem animais sofrendo e que, se eles estão sofrendo, uma hora ou outra todos nós vamos pagar por isso, seja com pandemias, seja com a extinção dos recursos naturais. E nós não teremos direito de escolha, assim como eles.

Links úteis:
Peta
Correio de Atibaia
Instituto Socioambiental


Luciana Teixeira Morais é jornalista, escritora, doula, bacharel em direito, mãe do Bento e vegana desde 2013.


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